
Três rostos que contam três histórias de uma guerra sem armas
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Carlos Neves antes de partir para o exílio com a sua mãe. Fotografia cedida por o entrevistado
Setembro de 1971, a única certeza era que desertar era para sempre. Embora tivesse a convicção de que aquele era o melhor caminho, a emoção e a dor de a deixar para trás foram sentidas por momentos. “Mãe não chores porque o teu chorar pode trair-nos”, pediu-lhe.
Com umas vestes pretas que simbolizam o luto dos últimos meses, Carlos despedira-se da sua mãe com o medo e a inquietação de que aquele podia ser o último momento. Sem olhar para trás e apenas com um bilhete de ida, pegou na mochila que trazia, meteu-a às costas e com apenas 1200 escudos no bolso partiu para o desconhecido.
A dor de Carlos era compreensível. Três meses antes de embarcar para a Holanda perdeu o seu pai e teria que deixar a sua mãe sozinha e sem trabalho. No entanto, para este jovem de 20 anos isso não era uma opção. Sabendo que o estado português dava emprego às viúvas, acreditou que a mãe – doméstica e apenas com a terceira classe –, conseguiria tirar um curso noturno durante estes 3 meses enquanto fazia o luto pelo marido.
“De repente recebemos um abanão. A minha mãe foi uma heroína, com a ileteracia toda que tinha, lançou se à vida e conseguiu vencer e trabalhou até aos 70 anos. Ela num espaço de 2 meses perde o marido e perde o filho – o marido fisicamente e o filho pela ausência e ainda tem que fazer pela sobrevivência…”, relembra.
A partir do dia 9 de setembro, Carlos tornou-se um refratário: um soldado que tinha ido à inspeção, mas fugira antes de fazer a recruta que o guiava para a guerra.

Miguel Cardina, um investigador e historiador que tem alguns trabalhos especializados no estudo da guerra colonial, fez em conjunto com Susana Martins, igualmente investigadora, uma investigação onde retratam os dados que muitos desconhecem.
“Por alto costumamos mencionar cerca de 9 mil desertores, aqueles que iam à inspeção e à recruta, mas depois fugiam do seio militar. Os que iam à inspeção, mas que não se apresentavam na recruta eram os refratários e foram mais 10 a 20 mil . Aos desertores e aos refratários juntava-se os que nem à inspeção nem à recruta iam, os faltosos que foram mais de 12 mil". Ainda assim Miguel nota que havia “indefinições no número de documentação no sítio [arquivos militares] e houve alguns dados que tiveram de ser extrapolados. Não temos dados da marinha e da força aérea”.
Todos juntos, podem chegar a perto de 240 mil durante os 13 anos da guerra.
Um desses desertores foi Fernando Cardoso. Hoje com 70 anos de vida é designer e admite ter uma paixão fervorosa pelo cinema. Mas há 40 anos atrás, essa paixão era limitada e escurecida pela censura protagonizada pelo salazarismo.
Hoje, sentado num jardim com um dia que oferece um sol contagiante e uma brisa agradável, Fernando relembra entristecido o clima cinzento, repressivo e retrógrado que todos os jovens viviam naquela altura. A este clima acrescentava um espectro que pairava sobre todas as pessoas e que, infelizmente, mais tarde ou mais cedo iria bater à sua porta.
“A nossa maior dificuldade era todos os dias perceber que amanhã, depois de amanhã, daqui a uns anos, que a guerra continuava constantemente sem parar. Todas as famílias sentiam a guerra, todos tinham alguém que estava na guerra, ou que foi mutilado, ou que foi detido, ou que... como muitas vezes acontecia... não voltou e foi morto”.
Esta realidade foi chegando a muitas casas entre os anos 1961 e 1974, a este jovem chegou em 1969 sem surpresa e como uma consequência lógica daquilo que pensou durante anos. Já tinha decidido que iria fazer a inspeção e a recruta, mas que não iria combater em África de maneira nenhuma. Entre risos, confessou que lhe interessava “aprender como era o sistema”.


Retrato de Fernando Cardoso antes de ir para a inspeção

Perto dos seus 16 anos, Fernando já tinha noção desta guerra e daquilo que não queria fazer

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Retrato de Fernando Cardoso antes de ir para a inspeção

Com um brilho nostálgico no olhar, José reconta este período da sua vida como uma verdadeira sobrevivência. Desde sempre intitula-se como um miúdo intensamente rebelde que passava os seus dias calorosos e até os nebulosos na praia a nadar. Ou então, nas proximidades do seu bairro pobre, onde as casas eram feitas de madeira e os telhados muitas vezes não existiam: o tanque e o "poço da macaca" eram os seus sítios de eleição.
Ainda que vivesse uma infância repleta de aventura, confessa que a sua recusa à guerra não se tratou de uma "inconsciência" até porque já tinha o seu irmão mais velho pelas terras africanas. "Eu sabia que ia matar pessoas. Era matar ou ser morto". Acrescenta que o estado usava-os para "tomar conta de um país que não era nosso". "Era deles, das pessoas que lá estavam. Isto agora é um tabu, mas houve imensa gente que não foi... Talvez mais do que aqueles que foram".
Ao longos dos anos José recorda que havia muitas pessoas, muitos amigos seus que iam e já não voltavam e isso assustava-lhe.
Durante um breve tempo de três meses a fazer uma especialização que o iria levar para uma espécie de espionagem de exército, Fernando apercebe-se que iria ser rapidamente incorporado para uma das frentes de batalha.
Era este o momento tão esperado e pelo qual andou a pensar durante anos, mas a sua mente estava segura e bem lúcida de que não iria combater e compactuar com uma "guerra injusta" contra pessoas que "estavam apenas a querer a sua liberdade e independência". "Não vou ser mais um soldado que vai oprimir mais uma pessoa, mais um povo", afirma.
A salto fugiu deixando tudo para trás.
Comecei logo a pensar: será que vou morrer, o que é que me vai acontecer?"
Apesar de alguns jovens terem uma consciência mais politizada da guerra, como é o caso de José e Fernando nem todos eram ativistas políticos ou militantes políticos. Segundo, Miguel Cardina nos arquivos militares que analisou percebeu que os fatores do “não” a esta guerra eram muito diversificados. “Desde o soldado que vai ter com a namorada e já não volta, até aos que não queriam aturar o capitão”, nota.
Igreja, Paz e Guerra
No meio destas histórias, na paróquia da Ajuda está um jovem de 17 anos muito ligado à igreja e ao desporto. E é exatamente aqui que as dúvidas vão começar a instalar-se.
“De repente chega uns padres espanhóis que vêm levantar muitas questões”, refere.
A vida católica de Carlos Neves leva uma grande reviravolta com esta chegada inesperada. Nos vários retiros que recorda que fazia em fins de semana, tudo o que era questionado por estes padres contribuiu, a longo prazo, para tirar uma ideia que, por vezes, tinha na sua mente por ter pouca informação: o facto de a guerra ser "só actos heroícos".
Apesar deste bom ambiente vivido nestes retiros, a PIDE, como já previsto por estes jovens na época, terminou com estas ideias consideradas contra o estado vigente em Portugal. "Todos os representantes desta igreja, os padres espanhóis e os leigos fecharam a Igreja de São Domingos numa noite de ano novo para fazerem discursos de paz contra a guerra. Até que a pide e a polícia arrombou aquilo e prendou toda a gente que tinha de prender", recorda.
Ainda que estes padres espanhóis tivessem sido deportados e os padres portugueses todos detidos, aqueles que tinham estado na sua presença nunca mais os esqueceram. Carlos foi um deles e revela com firmeza que "os jovens eram uma esponja a absorver informação" e aquela presença, ainda que temporária, provocou um "bichinho antiguerra e criou agitação e dúvidas".

1970. Na primeira linha de camisola branca está Carlos e no seu lado esquerdo um dos padres espanhóis, Padre Pepe
Mas foi num cenário completamente catastrófico que Carlos decidiu que para a Guerra nunca iria. Um cenário que ainda hoje está gravado na sua mente:
"Eu tinha os meus 17/18 anos, quando eu vou ao hospital da Estrela visitar um amigo que ficou ferido em combate e deparo-me com um cenário horrível de jovens mutilados, cegos, queimados, pernas partidas... foi um quadro tão horroroso, tão terrível que, eu disse logo, que à guerra não iria porque não queria ficar assim", relembra entristecido. Praticante de Hóquei em campo e jogador de andebol nos tempos livres, Carlos não conseguia imaginar a possibilidade de mutilação de alguma parte do seu corpo.
Com a ajuda de dois amigos que trabalhavam na TAP e viajavam muito, Carlos conseguiu fugir a este destino rumando para Holanda – a terra das liberdades. Como conseguiu o passaporte para sair do país, ainda hoje desconhece denotando que foi uma situação “curiosa” porque era impossível “alguém sair do país estando incorporado para a guerra”. Mas este não foi o único “milagre” que viveu nesta viagem, Carlos faz um relato de um individuo que simplesmente apareceu de “paraquedas” na sua vida, no momento certo e na hora certa.
“Sentei-me no avião e eu nunca tinha visto um avião por dentro na minha vida. Foi a primeira vez que viajei e foi a primeira vez de tudo. E ao meu lado, sentou-se um homem enorme e começou a falar comigo em inglês. Ora eu não percebia inglês… experimentou em francês. Ora, eu também não sabia francês… E português? isso sei. A primeira coisa que eu lhe disse foi: eu vou para Holanda, mas é para fugir à guerra. Eu não conhecia este homem de lado nenhum, mas ingenuamente disse-lhe logo isso. Santa ingenuidade, mas ele aplaudiu. Esta confissão salvou-me, foi graças ao meu amigo holandês que as portas da Holanda se abriram.
Chegámos ao aeroporto de Schiphol. Na mochila levava 1.200 escudos valor muito insuficiente para entrar na Holanda e só com bilhete de ida. Não me carimbaram o passaporte. Sem falar línguas senti-me perdido. Tentei explicar que o regresso seria de comboio. A polícia estava inflexível. O holandês veio em meu socorro, nunca soube o seu nome. Dos seus quase 2 metros, ele era muito grande, abre o vozeirão e dispara. Mais tarde ele traduziu o que disse.
«Vinha de um país fascista e nunca lhe levantaram nenhuma complicação, sempre andou livremente pelo país, não percebia que a Holanda, um baluarte das liberdade e da Social Democracia tenha barreiras piores que o fascismo» e outras coisas que não me lembro. Sei que a conversa foi longa. Por fim, este homem assinou um documento como se responsabilizava por mim e eu consegui entrar na Holanda devido a este indivíduo. Ele deu-me uma morada para um dia o encontrar em Roterdão. Acreditem ou não até hoje nunca consegui encontrar a morada, simplesmente não existe... Mas se não fosse ele, eu nunca conseguiria entrar na Holanda e por isso, se há milagres, este é um deles”.
Quando chegou a Holanda o seu olhar espantou-se com tudo o que via. Desde as calças com rasgões aos discos de música que eram altamente censurados em Portugal. Apercebeu-se de imediato que chegou ao país das possibilidades, mas depressa constatou que estava num mundo desconhecido e era a partir dali que a guerra sem armas, ou a "escola de vida", como intitula, começava.
A 500 quilómetros da Holanda, estava Fernando Cardoso numa cabine em Paris. As suas despedidas ficaram para trás, assim como toda a sua vida em Portugal. Dias mais tarde relembra que ligou à sua mãe que ficou sem saber o que dizer. A viagem para chegar ali foi difícil: a salto por Marvão teve de utilizar algumas técnicas que aprendeu na recruta.
O início do exílio de Fernando não foi fácil. Independentemente das condições económicas – de arranjar uma casa e um trabalho – a parte psicológica afetou-o de uma forma diferente:

“É deixar tudo o que tenho para trás e isso é talvez uma das coisas mais complicadas da vida. Deixo os meus amigos, a minha família, a minha namorada, nunca mais vou voltar a sentar-me naquele café, nunca mais vou passear à beira-rio, nunca mais vou à praia… Tive de fazer os meus lutos. Tive de me posicionar nesta questão: isto agora acabou, agora vou recomeçar de outra maneira e nos primeiros tempos houve algumas pequenas depressões”.
Ao fazer isto todos estes jovens sabiam que era para sempre:“Ninguém sabia que o 25 de abril iria acontecer. É uma decisão para sempre e dento da cabeça isto é pesado”.
Ainda assim acrescenta que o exílio tem um lado positivo, pois é “uma espécie de renascimento, é largar uma coisa que morre completamente e o nascer de uma coisa totalmente nova”. Para além disso, dentro deste "lado bom" do exílio recorda saudoso duas pessoas que conheceu e que jamais esquecerá:
1972. Fernando com 23 anos em Paris
A sobrevivência no exílio e a luta política
Sem olhar a horizontes mais longínquos, deixar Portugal não era uma opção para José. Ainda que a sobrevivência ficasse mais comprometida, José decidiu ficar pelo território português porque não queria deixar a sua mãe que estava a ficar doente. Arranjou um trabalho numa casa de antiguidades em Campolide e foi lá que se refugiou sem puder voltar para casa: "Vivia às minhas custas. Não podia voltar para casa porque era lá que éramos mais apanhados. Eles sabiam que eventualmente nós iríamos lá".
Entre histórias que aparentam ser animadas quando contadas por José, quem ficou pelas terras portuguesas teve vários momentos em que iria ser apanhado. No meio de muitos sorrisos e gargalhadas recorda que os bailes e os cinemas era "uma mina para prender desertores".
"Arrisquei ir a um baile. O baile era na rua General Taborda e eu lembro-me de estar muito bem e dançar com uma rapariga, até estávamos a dançar um slow quando vejo entrar uns 6 aos 7 policiais da Pide. Com medo de que eles me conhecessem, porque eu já sabia que era conhecido e que já estava a ser perseguido, tapei a cara a dançar com ela. Por acaso eles não levaram ninguém, só estavam a inspeccionar mas isso era o que eles faziam para depois na noite a seguir irem lá buscar aqueles que estavam lá."
José relembra ainda outra história em que viu mesmo o seu nome numa escala que um dos polícias da PIDE trazia na mão. Como um jovem que não deixava de ser foi para um banco no parque Eduardo Sétimo apanhar sol quando de repente chega dois oficiais. No primeiro olhar que teve com esses policias José disse que foi o suficiente para começar a fugir: "Só tive tempo de virar-me para trás e fugir, saltei um muro e nunca mais os vi. Nem olhei para trás para ver se vinham atrás de mim."

José nas suas idas à praia antes de ser incorporado
Ao remomerar estes episódios de forma cómica, mas que são para José "histórias de vida de alguém que também sofreu" confessa de imediato que isto não era o pior. Muito chegado à sua mãe Lourdes, José vivia preocupado com o facto de ela nunca mais o conseguir ver depois de ter fugido: "A minha mãe tinha uma doença que a estava a cegar. Foi muito duro para mim pensar que ela nunca mais me iria ver e a alegria que eu iria ter no meu rosto quando a visse...".
Nestas circunstâncias, José desafiou muitas vezes a polícia e a sua própria "sobrevivência" para ir a casa visitar os pais. "De fugida" como alega passava tardes com a sua mãe onde comia os seus melhores petiscos e recebia os mais calorosos abraços.
Era ali que era feliz. Quando voltou a vê-la, precisamente no dia 25 de abril revela que foi naquele dia que cegou definitivamente.

1972. Caderneta militar de José
Já fora das terras portuguesas, mais especificamente em Amesterdão Carlos conta uma história que até hoje não esquece, entre gargalhadas e sorrisos contagiantes, faz um relato da primeira vez que foi pedir um emprego:
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"Muito canudo e confiante, com um curso que eu achava que me iria dar um bom emprego fui ao centro de desemprego. Identifico-me já com a legalização toda e comecei a dizer que era serralheiro e mecânico e que queria um emprego. Bem o emprego que me arranjaram, foi de esfregona e de balde na mão a lavar hotéis e companhias de seguro. Muitos quilómetros eu fiz de esfregona e balde na mão...".
Ainda que relembre tudo com um certo sorriso, no início da sua "nova" vida em Holanda, Carlos teve de ultrapassar vários obstáculos. Nas primeiras noites ficou em Albergues de jovens até que foi dar com uma morada de conhecidos e ficou por lá mais uns tempos.
Sempre de mochila às costas, foi fazendo de tudo um pouco em vários sítios e fez de tudo para conseguir sobreviver. Quando chegava o Inverno gelado e solitário na Holanda, Carlos refugiava-se nas Igrejas a ler e a dormitar e a "recuperar algum calor" pois não tinha dinheiro para comprar combustível para aquecer o seu quarto.

Foi ao conhecer pessoas solidárias que as coisas começaram a mudar e conseguiu encontrar o seu equilibro. No meio de todas as pessoas identifica um senhor chamado Rui Mota como alguém muito importante que "o ajudou a reintegrar-se na sociedade holandesa" e com quem "aprendeu o significado e valor de duas palavras" que até então desconhecia: "democracia e liberdade".
E foi nestas duas palavras concretas que Carlos começou a integrar algo que estava acontecer e que seria muito importante para aqueles que pensavam em desertar: "assim como eu cheguei à Holanda sem nenhum tipo de apoio, havia muitos jovens que chegavam nas mesmas condições. E então houve uma organização política que se chamava o comunista e começámos a desenvolver vários comités de desertores e refratários".
Paralelamente a esta missão solidária destes comités, estes jovens também aproveitavam para denunciar o colonialismo e a ditadura vivida em Portugal: "Quando equipas de futebol portuguesas jogavam, e o jogo era transmitido para Portugal, fazíamos grandes cartazes que tentávamos colocar em pontos estratégicos para as câmaras apanharem a nossa mensagem e fazê-la chegar a Portugal". Todas as oportunidades eram aproveitadas por estes jovens para denunciarem a guerra e o fascismo.
À semelhança de Carlos também Fernando fazia parte destes comités. Quando chegou a Paris foi para casa de uns amigos que apoiava vários desertores e refratários. Uma vivenda gerida por estes jovens a “15 Rue de Roulminé servia “como uma espécie de acolhimento durante 3 ou 4 semanas, o que fosse preciso até as pessoas mudarem de trabalho e de residência”. “Servia para suportar aquele primeiro impacto e eu e o meu colega Luís Matias fomos os primeiros a usar essa casa”, conta Fernando afirmando que está a ser feito um projecto sobre esta casa para que não seja esquecido.
1973. Carlos recebe a visita de mãe na Holanda depois de um acidente que justifica o gesso na perna
"Quando vi o povo na rua percebi finalmente: estava livre"
No célebre dia 25 de abril de 1974, José estava numa das suas visitas "fugidas" a casa quando de repente, passa uma canção na rádio que lhe parecera muito distinta das que costumava passar. "E depois do Adeus" era a trilha que soava. No entanto, a emoção de José e de todos lá em casa não se soltou de imediato. "Foi quando ouvimos Grândola Vila Morena de José Afonso... estava tudo explicado. A ditadura foi abaixo", explicou José. Vivendo perto do quartel da Pontinha, onde tudo começou e ignorando quem dizia para não ir á rua, assim que saiu ficou espantado com tudo o que via: "Quando vi o povo na rua percebi finalmente que estava livre"
Na Holanda Carlos não queria acreditar. "Por ser em francês ouvia sempre a rádio belga quando me preparava para ir trabalhar, no dia 25 de Abril de 1974, passava das 6h da manhã, oiço, coup d'état au Portugal. Pareceu-me impossível. Mil dúvidas, outros tantos sorrisos. Pensávamos todos que era um golpe direita." Muitos jovens por todo o mundo começaram a fazer contas com os patrões para chegarem o mais depressa possível àquela que era a sua terra.
Carlos chegou no dia 4 de junho, um mês e meio depois da Revolução e na viagem de comboio que fazia com mais quatro amigos sentiu uma sensação estranha: "Tive uma sensação estranha, porque na altura, quando eu saí, não tinha data de regresso. Eu sabia que poderia demorar 1, 5, 10 anos e quem sabe a vida toda. E quando há aquela oportunidade do regresso… é que nem se olhou para o lado".

Carlos regressa de comboio 2 anos depois do 25 de abril


Carlos regressa de comboio 2 anos depois do 25 de abril
Em Paris era de madrugada quando Fernando sai do trabalho, pega na sua mota, liga a rádio e dirige-se para casa até que ouve numa voz em francês: "golpe de estado em Portugal". Assim como Carlos achou que era um golpe de ultradireita, mas mais tarde junto com os seus "camaradas" percebeu que era "pró-democracia" e contra a ditadura. "Na altura ninguém imaginava que os militares fossem fazer um golpe militar de esquerda", confessa.
Com algum receio de ser preso por ser um desertor e o país começar a ser governado por militares, Fernando entrou em Portugal com um bilhete de identidade falso francês. Como militante político ainda tinha alguns assuntos para tratar em Paris e só regressou definitivamente ao seu país dois anos depois, precisamente quando sai o "regulamento de aplicação" da lei de amnistia aos desertores.
Fernando recorda bem esse dia. Com um recorte na mão do diário popular dirige-se rapidamente à avenida de Berna e faz-se anunciar: "Sou desertor. Quero resolver a minha situação". O soldado embasbacado a olhar para Fernando virou-se para trás e gritou: "Meu capitão está aqui um desertor". Coronel Fabião, nome que nunca mais esquecera, incitou uma pergunta que considerou inusitada: "Desertor? E onde está o armamento e o fardamento?". Fernando indignado mostra-lhe o recorte e insiste que quer resolver a sua situação.
"Toda a gente veio olhar para mim como se eu fosse um animal raro. Para eles [militares] nós eramos uma espécie de bichos".

1976. Recortado por Fernando, este pedaço de papel era do Diário Popular e publicava a amnistia para os soldados desertores
Uma espécie de assunto Tabu na sociedade
"Eu nunca me arrependi de ter desertado. Eu fiz uma guerra que não tinha armas e tudo o que vivi era uma preparação para a vida" (Carlos Neves). "Quem fugiu também sofreu e o que fizemos foi um luto diferente" (Fernando Cardoso). "Não importa o quanto sofremos ou se o que nos levou a desertar é válido, vamos ter sempre esta condição de cobardes e de traidores da pátria" (José Barros).
Todos estes jovens fossem ou não para outro país sofreram uma guerra sem armas. Sofreram pela ausência dos que mais amavam, pela perda de uma vida passada e por um luto que tinha de ser feito para seguirem em frente.
Miguel Cardina aponta vários fatores para que este tema caísse no silêncio e se tornasse um tabu na época: "As guerras sobretudo nos seus momentos iniciais são feitas desta ideia de que há um esforço nacional que tem de ser feito, é a pátria que esta em perigo e o desertor é aquele que recusa esta narrativa", explica acrescentando que o 25 de abril não retirou a ideia de que "é preciso ir à tropa para se fazer homem" e, por isso, "a construção da masculinidade era e é muito marcada por isto".
Atualmente reconhece que a imagem do ex-combatente é complexa e que "muitos deles" podem acabar por "mobilizarem-se" com esta imagem do desertor: "Eu creio que isto é muito marcante nos militares que fizeram a guerra. Quem fez a guerra sente que também não foi muito reconhecido porque vive em situações de pobreza, ou porque viveu um stress pós traumático ou porque acha que o 25 de abril e a descolonização foram um erro ou até por acharem que a guerra foi um erro, mas foram obrigados a lá ir".
O binómio coragem/cobardia ainda não está bem explicado: "A ideia que parece permanecer é que quem fugiu foi mesmo um cobarde. Aliás alguém que fugiu á guerra era alguém que não tinha coragem, que não cumpriu os seus deveres com o seu país, que não foi solidário com os seus camaradas de armas. Este quadro persistiu para além do 25 de abril de 74", comenta Miguel Cardina.
"Eu assumo a minha condição de traidor á pátria, á pátria da ditadura, à pátria do fascismo, á pátria da repressão, do obscurantismo, da polícia politica, da censura e da guerra”. Nunca negando esta condição de desertor e de traidor da pátria Fernando Cardoso cria com mais 22 exilados políticos e desertores uma associação - "Aep61-74 Associação de Exilados Políticos Portugueses"-, que tem como missão dar a conhecer a história destes desertores. “Isto é um assunto totalmente incompreendido porque a história contemporânea portuguesa desapareceu da cultura. Parece haver uma espécie de rutura e é como se entre o Egipto e hoje, não se passasse nada”, disse a sorrir, porém com alguma preocupação.
Além disto, estes desertores quiserem eternizar as memórias de "tempos incertos" e já escreveram dois livros onde relatam testemunhos pessoais: Exílios I e Exílios II
"Os nossos arquivos foram acumulando mais poeira, as nossas memórias ficando cada vez menos cinzentas, um doce e ácido esquecimento pousando nas prateleiras. Os protagonistas de uma parte da história portuguesa contemporânea, esquecidos. Tudo estava em paz.", pode ler-se na introdução do primeiro livro, escrita por Fernando Cardoso.

Participando apenas em projetos que tragam a memória para a frente, evitando a "efeméride" e a "celebração", Fernando Cardoso tem como desejo que esta parte da história seja transportada para as gerações seguintes e que, posteriormente, continue a ser carregada por eles. "O que me interessa é que os jovens saibam o que foi e o que trouxe o 25 de abril, o que foi a guerra colonial e o colonialismo português, o fascismo e a ditadura". Considerando que é um assunto colocado debaixo dos olhos da historia contemporânea, Fernando transparece em várias palavras a pouca esperança que tem para a concretização deste desejo.
Ainda assim, Miguel Cardina opõe-se a esta pouca esperança de Fernando afirmando que a sociedade já comece a falar nisto nomeadamente, devido "à constituição da associação".
"Sou desertor e sou com muito orgulho"
O país ainda não os absolveu. Mas eles não deixaram as memórias ficarem "guardadas numa gaveta a ganhar pó". Ainda que pareça haver uma quebra de silêncio em relação ao tema, José lamenta porque não acredita "que os exilados políticos façam parte da história do 25 de abril". Mas sorri porque ao contar a sua história, de perda, de sofrimentos, de revoltas, de outros tantos sorrisos e outras tantas lágrimas percebeu que "vai haver sempre alguém" que não os "vai deixar cair em esquecimento". Com clareza afirma:
"Eu recusei matar pessoas, recusei oprimir um povo, recusei o colonialismo, recusei lutar numa guerra injusta. Eu admito, sou desertor e sou com muito orgulho".